Aços Duros São Realmente Mais Difíceis de Afiar? O Maior Mito da Cutelaria Quebrado

Muitos entusiastas que carregam o seu EDC diário ou utilizam ferramentas de alta performance acabam hesitando na hora de investir em aços de alta retenção de fio — como o D2 ou tecnologias mais recentes como o MagnaCut —, por puro medo do trabalho que dará na hora de refazer o corte.

Existe uma crença popular de que um aço com alta dureza é sinônimo de horas sofrendo na pedra de afiar. Mas a verdade técnica, comprovada por testes rigorosos de especialistas em metalurgia como Larrin Thomas, é que a dureza do aço é apenas uma peça do quebra-cabeça.

Comparando um aço mais simples e tenaz, como o 8670, com o "monstro" da resistência ao desgaste, o Rex 121, notou-se que o número de passadas necessárias para levantar a rebarba é praticamente o mesmo. Mas como isso é possível?

Tudo se resume a quatro fatores fundamentais que mandam muito mais na afiação do que a dureza bruta do metal.

1. A Geometria do Fio: Menos metal, menos esforço

A regra de ouro é simples: a afiação é um processo de remoção mecânica de material. Se a sua faca possui uma geometria com o fio bem fino (uma lâmina desbastada corretamente), a quantidade de metal que o abrasivo precisa desgastar para criar um novo ápice é mínima. Sendo assim, mesmo um aço de altíssima resistência ao desgaste não dará dor de cabeça, porque há muito pouco metal no caminho.

2. O Tipo de Abrasivo: Ferramentas modernas para aços modernos

Se você tentar afiar um aço premium lotado de carbonetos duros (como os de vanádio) usando uma pedra natural macia, a pedra será desgastada antes da faca. A chave aqui é parear a tecnologia do aço com a tecnologia da afiação.

Quando utilizamos abrasivos superduros, como placas diamantadas ou CBN (Nitreto de Boro Cúbico), a dureza do aço deixa de ser o gargalo. O CBN corta os carbonetos do aço com facilidade, tornando a criação da rebarba um processo rápido e eficiente, nivelando o jogo entre um aço simples como o Sandvik e super aços complexos.

3. Nível de Polimento: Onde o tempo realmente é gasto

Uma coisa é afiar sua faca para o uso utilitário do dia a dia, parando em uma granulação de 400 ou 600. Nesse nível, o processo é extremamente rápido. O cenário muda completamente quando o objetivo é um polimento espelhado.

Polir aços de alta resistência ao desgaste até níveis altos de granulação (como 5000 para cima), especialmente com abrasivos mais macios ou pastas de polimento comuns, é o que realmente consome tempo. A dificuldade não estava na afiação em si, mas no acabamento estético desejado.

4. Tratamento Térmico e Austenita Retida

O grande "vilão" oculto da afiação muitas vezes não é a liga do aço, mas como ele foi temperado. Um tratamento térmico inadequado pode deixar o que chamamos de austenita retida — uma estrutura mais macia e "gomosa" no aço.

Quando o aço apresenta altos níveis de austenita retida, o processo de remover a rebarba com precisão e alinhar o fio se torna um verdadeiro pesadelo. A rebarba dobra de um lado para o outro e não se desprende. E o pior: isso pode acontecer com virtualmente qualquer aço se a receita da têmpera não for seguida à risca pelo cuteleiro ou fabricante.

Conclusão para não errar mais

No fim das contas, a eficiência na afiação exige constância e técnica. Se você mantiver o ângulo de afiação preciso e inalterado do início ao fim do processo (o que é facilitado imensamente pelo uso de guias de ângulo e sistemas guiados), a remoção de material vai direto para onde importa: o ápice do fio.

Não fuja das facas com aços de alta performance. Com a geometria correta, um bom abrasivo e uma manutenção regular do ângulo, sua lâmina estará pronta para qualquer desafio no seu dia a dia.

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